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Coluna da Manoela Caldas

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 Mensagem não lidaPublicado: Dom Mai 19, 2019 9:05 pm 
 Atualizado: Seg Mai 20, 2019 7:58 pm 
Mensagens: 739
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Quando uma viagem chega ao fim, a vontade é de não querer ir embora do destino explorado. Mas a realidade chama e após todo o processo de check-out do hotel e burocracias do aeroporto, o cansaço fala mais alto e eu só quero chegar em casa. Devidamente acomodada na poltrona da classe econômica e pronta para encarar um voo de 12 horas, fechei os olhos enquanto os outros passageiros embarcavam e quando o sono chegava, uma voz que sobressaía entre os demais diálogos me despertou.

Ouvi um canto - mas não dos bonitos e muito menos dos apropriados. Sentado na janela há duas filas atrás de mim, um homem, nativo do destino, sozinho, de provavelmente uns quarenta e poucos anos e com roupas de quem desembarcaria no Brasil e iria direto para a praia, cantarolava clássicos do Bon Jovi como se estivesse em casa. O assento do meio estava vazio e um outro homem sentava no corredor. Na primeira música, a reação da cabine foi olhares tortos e até algumas risadas, porque o cantor ainda parecia apenas um sem noção que não apresentava ameaças. Até que a passageira com reserva para a poltrona do meio chegou.

A menina, que aparentava ter uns 15 anos, estava com uma excursão de adolescentes que voltavam do intercâmbio. Ao identificar sua poltrona ao lado do cantor, ela não sentou e imediatamente foi comunicar a estranheza à adulta responsável pelo grupo, que por sua vez, chamou a comissária de bordo. Nesse momento, todos os passageiros em volta já estavam atentos, inclusive e principalmente eu, com meu olhar jornalístico e feminista.

O pedido inicial era para que a adolescente pudesse sentar em outro lugar. Afinal, o cenário de viajar na poltrona do meio ao lado de dois homens desconhecidos já acende o sinal de alerta em qualquer mulher. Somando a cantoria suspeita e a idade da passageira, a situação ficava ainda mais preocupante. A comissária de bordo prontamente tranquilizou a responsável pela excursão e afirmou que a situação seria resolvida, mas era o homem que teria que mudar de lugar, não a menina.

A comissária comunicou o cantor, com discurso firme, que aquele comportamento não era permitido e começou a mexer os pauzinhos para que ele trocasse de lugar para sentar ao lado de outro homem adulto. Com tom sonso e debochado, ele respondeu a funcionária afirmando que estava fazendo nada demais, mas ia parar. Minutos depois, a playlist de Bon Jovi novamente ecoava na cabine e a comissária voltou com apoio de outra colega para dar o ultimato. As duas funcionárias o confrontaram. Ao questionarem, educada, porém rigidamente, se o passageiro havia ingerido bebidas alcoólicas, receberam risadas como resposta. Repetiram a pergunta e dessa vez, o homem respondeu rindo que "foi só um gole", enfatizando o deboche.

O que era um mero incômodo sonoro passou a ter motivos reais para que aquele homem configurasse uma ameaça aos passageiros e tripulação. As comissárias finalmente o convidaram a se retirar. Ele não relutou; deu apenas uma bufada e seguiu as instruções. Nesse momento, o avião já deveria ter decolado há 15 minutos e não dava indícios de que sairia tão cedo. Comissário para lá, comissário para cá, o capitão da aeronave foi ao alto-falante para justificar o que nesse momento já eram quarenta minutos de atraso.

O capitão desviou de toda a formalidade do discurso dos comissários e foi direto em seu anúncio: "Senhores passageiros, peço desculpas pelo atraso, mas precisamos expulsar um bêbado do avião". Após o enunciado de alívio cômico, explicou que apesar da figura não estar mais na aeronave, a demora se dava por causa de burocracias e também pela retirada das bagagens do bêbado do porão. Pouco mais de uma hora de atraso depois, o simpático capitão anunciou que a decolagem estava autorizada e o voo lotado de brasileiros e adolescentes não poderia ter outra reação a não ser comemorar, com direito a palmas e "Uhul! Aê!".

Após o embarque mais intenso da minha vida, o sono naturalmente tinha ido embora. Foi a primeira e única - até o momento - vez que havia presenciado alguém sendo expulso de um avião. Voar com homens bêbados não era novidade. Eu já estive no lugar da adolescente. Mas na minha história, o cantor era um grupo de três jovens adultos, também homens, que se embriagaram no ar com as miniaturas de vinhos e destilados servidas no jantar. Eles estavam na fileira imediatamente atrás da minha e insistiam em puxar assunto, mesmo com a minha clara demonstração de incômodo.

Algumas perguntas martelam na minha cabeça até hoje, mas o episódio do bêbado que foi expulso só me faz ter certeza sobre os privilégios masculinos em todas as situações da vida, inclusive durante uma viagem de avião. A menina adolescente que se recusou a sentar ao lado do cantor representa todas nós. É claro que outros homens também poderiam não querer ficar nesta posição pelas próximas 12 horas, mas o motivo seria apenas o incômodo e não o medo. O avião é um transporte hiper seguro; o medo, para mulheres, é dos passageiros.

Leia também: O que acontece ao ingerir bebida alcoólica dentro do avião?

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http://fdv.im/ManuCaldas



 Mensagem não lidaPublicado: Ter Mai 21, 2019 12:21 pm 
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Mensagens: 5448
Nossa que situação, Meu Deus!! E que papelão desse cara! Ainda bem que ele não se opôs a sair. Imagina se tivessem que chamar polícia?! Poderia ser um problema e atraso muito maior. E a menina fez muito bem em não sentar e falar com a responsável pela excursão. Realmente os medos para nós, mulheres, estão por toda a parte - inclusive quando jamais imaginaríamos.

Eu viajo muito mas nunca passei por uma situação assim, diferente, num voo!

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http://fdv.im/JulianaMagalhaes


 Mensagem não lidaPublicado: Ter Mai 21, 2019 5:20 pm 
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Mensagens: 797MG
O relato é sério mas ri aqui imaginando quais músicas do Bon Jovi o bebum estava "cantando" e que, possivelmente, rolou um air guitar.


 Mensagem não lidaPublicado: Seg Mai 27, 2019 11:47 am 
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Mensagens: 37661
Tem muita gente sem noção. Achei que ele aceitou bem a expulsão, pois geralmente os bêbados não querem sair e causam mais tumulto ainda.

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